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- Querida, acorde! Chegamos! Entre, vá ver sua avó e conhecer nossa nova casa. – minha mãe esbanjava felicidade.
Então retribui seu sorriso alegre, levantando meu corpo dormente lentamente, pegando minha grande mala de roupas e pertences.
- Deixa que eu carrego filha! Oh meu Deus! O que você trouxe aqui dentro? – disse meu pai dando-me um beijo na testa e pegando a mala de meus braços que cambaleavam.
- Só o necessário. – murmurei saindo do carro em direção à porta da casa.
Eu passei por um caminho de pedras curto colocado no meio da grama suja com folhas. Era outono. As árvores e flores que deveriam estar enfeitando a frente da casa, estavam todas secas formando uma pequena chuva de folhas a cada ventania. Subi os pequenos dois degraus chegando à um deck simples de madeira onde havia uma cadeira de balanço, num estilo bem avó, com um gato preto dormindo, Felix, me lembro vagamente dele, eu era muito pequena a última vez que o vi.
Entrei pela porta verde de entrada, pouco desbotada.
Assim que entrei estava em um salão necessariamente grande onde se localizava a sala, e a mesa de jantar. Passei por esse salão observando os detalhes, coisas de porcelana,quadros pintados por meu avô, até fotos da família. Segui o cheiro de polenta, provavelmente minha avó estaria por lá.
Abri uma porta de vidro escura e lá estava, minha avó, na frente do fogão pegando com uma luva de cozinhar a tigela cheia de polenta. Meu prato preferido. Tinha certeza que era de propósito. Eu a encarei com um simples: oi.
Minha avó estava tão diferente, tão mais velha, faziam sete anos que eu não a via. Só nos falávamos por telefone, e ainda sim raramente. Eu a olhei de cima a baixo, fazendo um “check-up” geral. Ela estranhou a minha observada diferente mas desviou. Colocou a tigela em cima de uma bancada pequena, jogou a luva em cima da pia de mármore, e veio de braços abertos em minha direção.
Abraçou-me, um abraço tão forte, cheio amor que eu rapidamente retribui o carinho com um beijo em sua bochecha. Fazia anos que eu não sentia aquele amor de avó. Eu precisava daquilo, eu sabia, mas todos esses anos eu a ignorei, tive a vergonha na cara de nunca aparecer nem para simplesmente olhar nos olhos, estava com vergonha de mim mesma.
- Minha linda! Como você cresceu! Estava morta de saudades, passaram-se muitos anos. Como você está linda, quantos anos está? – ela disse com as mãos quentes e enrugadas em meu rosto, me libertando de seus braços. Acabara de lembrar que todos os meus aniversários foram sem festa, apenas ia na casa de Caio e comíamos cookies juntos vendo um filme que ele me dava de presente. Toda essa minha individualidade pesou em minha cabeça por alguns segundos, até que consegui voltar à realidade e responde-la.
- Também senti saudade. Estou com treze minha avó. Desculpe-me por não ter vindo te ver, agora percebo que fui boba. – uma lágrima de arrependimento caiu de meus olhos. – Eu... te... – eu admito, sou meio amarga, não me lembro de ter dito eu te amo à alguém faz anos. – Eu te amo vó. – As palavras saíram difíceis, mais era impossível não dizer isso a ela. Pela primeira vez em anos eu senti o seu abraço, o seu carinho, o seu amor, o cheiro de sua comidinha especial. Ela merecia saber que por mais que eu fosse a pior neta do mundo eu a amava.
- Minha pequenina! Eu te amo também. Não chore, você não tem culpa, você esta numa idade linda. Precisa mais é ficar com seus amigos e não perdendo tempo com essa sua velha avó. – Ela disse passando o dedo secando minhas lágrimas, e fazendo uma graça para eu abafar aquele choro. – Vamos, vamos conhecer a casa, você precisa ver se gosta do jeito que decorei o velho quarto de seu pai, especialmente para você.
- É claro. – eu disse envolvendo meus braços em sua cintura, foi um alívio eu poder pronunciar o adjetivo “vovó” sem culpa alguma.
Já começou provocando emoções em quem lê. Parabéns.
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